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quinta-feira, outubro 25, 2007

Sérgio Cabral Filho e o aborto - II

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3) "Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves."

Esta visão é a da Igreja em sua milenar existência na Terra. Ou bem o governador é favorável ao aborto, ou é cristão católico. Uma coisa exclui a outra, necessariamente. Se o governador é católico, então deve conhecer o que o saudoso Papa João Paulo II escreveu na Encíclica "Evangelium Vitae":

"
A vida humana é sagrada e inviolável em cada momento da sua existência, inclusive na fase inicial que precede o nascimento."

Onde está o atraso? Onde está a visão errada? Onde a gravidade desta posição? Talvez Sérgio Cabral Filho se ache mais católico que o Papa...

O falecido Papa João Paulo II escreveu também um outro trecho que se encaixa perfeitamente no "católico" Sérgio Cabral Filho:

"Uma responsabilidade geral, mas não menos grave, cabe a todos aqueles que favoreceram a difusão de uma mentalidade de permissivismo sexual e de menosprezo pela maternidade, como também àqueles que deveriam ter assegurado — e não o fizeram — válidas políticas familiares e sociais de apoio às famílias, especialmente às mais numerosas ou com particulares dificuldades económicas e educativas."

O governador dizer-se católico é muito fácil... Muitos fazem o mesmo: estão aí as "Católicas pelo Direito de Decidir" como exemplo clássico de propaganda enganosa. O governador vai pelo mesmo caminho; no caso, quer ir abertamente contra o 5o. mandamento -- "Não matar" -- e ainda posar de católico.

Se ele quer tentar enganar a si mesmo dizendo-se católico, fique à vontade Só não espere que alguém acredite em uma asneira destas.

***

Resumindo, a fala do governador do Rio de Janeiro é um desastre completo, do início ao fim. Nada se salva. É o discurso botequinesco de quem está mais acostumado a soltar bravatas do que a refletir. É o estilo Lula de pensar nos problemas.

Sérgio Cabral Filho e o aborto - I

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O governador do RJ, Sérgio Cabral, concedeu entrevista ao portal G1, na qual podemos ler o seguinte trecho:

"G1 – Mas o Brasil não consegue dar conta do mosquito da dengue. Teremos condições de resolver essa questão das drogas?
Cabral - O Brasil não dá conta do câncer. Não dá conta dos que necessitam de CTIs. Não dá conta de um monte de coisas. Se for partir para isso... São duas questões que têm a ver com violência: uma é a questão das drogas que é mais internacional. O Brasil deve contribuir. A outra, é um tema que, infelizmente, não se tem coragem de discutir. É o aborto. A questão da interrupção da gravidez tem tudo a ver com a violência pública. Quem diz isso não sou eu, são os autores do livro "Freakonomics" (Steven Levitt e Stephen J. Dubner). Eles mostram que a redução da violência nos EUA na década de 90 está intrinsecamente ligada à legalização do aborto em 1975 pela suprema corte americana. Porque uma filha da classe média se quiser interromper a gravidez tem dinheiro e estrutura familiar, todo mundo sabe onde fica. Não sei por que não é fechado. Leva na Barra da Tijuca, não sei onde. Agora, a filha do favelado vai levar para onde, se o Miguel Couto não atende? Se o Rocha Faria não atende? Aí, tenta desesperadamente uma interrupção, o que provoca situação gravíssima. Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves. Não vejo a classe política discutir isso. Fico muito aflito. Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. Estado não dá conta. Não tem oferta da rede pública para que essas meninas possam interromper a gravidez. Isso é uma maluquice só."

A quantidade de besteiras apenas nesta resposta indica a mediocridade do governador para tratar grandes questões. O primarismo de Cabral Filho é parecido com o que se espera de quem tente lidar com este tema em um botequim, no qual a seriedade das opiniões é inversamente proporcional à quantidade de álcool ingerido. A rasterice de seus pseudo-argumentos não se sustentam à mais leve brisa.

Apesar da superficialidade com que trata o tema, o governador parece ter particular gosto pelo mesmo. Logo no início de seu governo, ele abordou o tema, merecendo o elogio do jornalista Gilberto Dimenstein, e que já foi abordado neste blog (clique aqui). Dimenstein, então, chamou Sérgio Cabral Filho de "corajoso". Ah, a mútua atração dos medíocres...

A verdade é que a resposta de Cabral Filho é um emaranhado de idéias pessimamente fundamentadas e que têm em comum apenas a superficialidade, coisa que parece ser a marca registrada do governador. Mas o governador pode ficar tranqüilo, pois mediocridade, superficialidade, rasteirice faz parte do pacote básico de um bom abortista.

Seu discurso é tão trôpego que dificulta sobremaneira uma análise. Salta aos olhos de quem o lê a falta de unidade mínima nas idéias. É o discurso bêbedo de quem não gastou 2 segundos no tema.

O governador merece ser respondido por partes.

1) "A questão da interrupção da gravidez tem tudo a ver com a violência pública. Quem diz isso não sou eu, são os autores do livro "Freakonomics" (Steven Levitt e Stephen J. Dubner). Eles mostram que a redução da violência nos EUA na década de 90 está intrinsecamente ligada à legalização do aborto em 1975 pela suprema corte americana."

Aparentemente o governador fez uma boa argumentação, citando a fonte e tudo mais. Coisa de nível acadêmico mesmo. A tese de Steven Levitt vai muito citada aqui no Brasil e muitos imaginam que o norte-americano demonstrou sem quaisquer sombras de dúvida a íntima relação entre aborto e violência.

Nada mais enganoso... Quem compra o peixe que Levitt quer vender sem procurar saber mais sobre sua procedência, corre o risco de ficar com um best-seller na mão e pensar que ali estão todas as respostas para os problemas atuais. Saiba o governador que a tese de Levitt não é a unanimidade que ele pensa que é. Cientistas de renome já torceram o nariz para suas conclusões e alguns até mesmo criticaram fortemente a metodologia utilizada no "paper" que serviu de base para o texto que apareceu em "Freakonomics".

Em um post antigo neste blog (clique aqui), no qual um "mestre" também citou a tese de Levitt, escrevi assim:

"Sr. Kappaun, o "mestre", "esqueceu-se" de ir atrás de outras fontes que contestam a tal demonstração de Steven Levitt. Fizesse ele um pouquinho de esforço, uma simples pesquisa no Google ou coisa parecida, ele saberia que vários pesquisadores contestaram as afirmações do Sr. Levitt e não acharam a tal relação entre aborto e criminalidade. Alguns outros pesquisadores apontaram para o fato de a queda da criminalidade coincidir com o domínio das autoridades policiais sobre a praga do "crack", que grassou entre os jovens nas maiores cidades norte-americanas. Cientistas como Theodore Joyce (National Bureau of Economic Research) e Alfred Blumstein (Criminologista - Carnegie Mellon University) vêem nenhuma ou bem pouca influência da legalização do aborto. O Sr. Kappaun, o "mestre", não deu pelota para outros pesquisadores que têm pensamento contrário ao de Steven Levitt. Talvez ele pense que um autor de best-seller, diga o que disser, deva estar certo de qualquer maneira."

O governador Cabral Filho fez como o tal "mestre" e parece também acreditar que se está impresso em um best-seller deve mesmo ser coisa verdadeira.

Mais uma coisa, a legalização do aborto nos E.U.A. aconteceu em 1973, e não em 1975. Infelizmente o governador está errado... Digo infelizmente porque se ele estivesse certo, uma legalização ocorrida 2 anos mais tarde significaria milhares de vidas salvas de terminarem como lixo biológico, pois é disto que estamos tratando - do fim indigno de uma vida humana. É disto que estamos falando, governador, de vidas humanas que merecem ser tratadas com dignidade e não terem seus destinos decididos com pseudo-argumentos coletados em algum best-seller da moda.

2) "Porque uma filha da classe média se quiser interromper a gravidez tem dinheiro e estrutura familiar, todo mundo sabe onde fica. Não sei por que não é fechado. Leva na Barra da Tijuca, não sei onde. Agora, a filha do favelado vai levar para onde, se o Miguel Couto não atende? Se o Rocha Faria não atende? Aí, tenta desesperadamente uma interrupção, o que provoca situação gravíssima."

Agora o governador tenta uma linha de argumentação apelativa ao social, ao velho tema de "os-ricos-podem-então-os-pobres-também-devem-poder". É a luta de classes invadindo o tema do aborto.

O governador, ao menos, é coerente. Coerente em sua mediocridade, mas, ainda assim, coerente. Na mesma entrevista ele defendeu a legalização das drogas. Parece que o governador não pode ver uma ilegalidade que, em vez de tratar do problemas com os instrumentos de que dispõe, ele prefere mesmo é lutar para que o delito passe a ser legal. Dá bem menos trabalho, não é, governador?

Então os pobres também devem ter o "direito" de abortar já que os mais abastados o podem? É por demais curioso o método de resolução de problemas do governador...

Aliás, beira o surreal a frase "Não sei por que não é fechado" saída da boca de um governador, que tem a polícia sob seu comando. Como assim não sabe? É simples: é devido à sua incompetência, governador! É a sua ligeireza ao tratar do tema que o leva a até mesmo a deixar de reconhecer o escopo de seu trabalho. O aborto é crime no Brasil, mas a polícia de Sérgio Cabral Filho escolhe os crimes que deve combater. Parece que Sérgio Cabral Filho, que torna-se a cada dia mais próximo do presidente Lula, está absorvendo o método deste último de abordar questões complicadas: "não sei", "não vi", "não é comigo".

Se Sérgio Cabral Filho vira para o lado quando ciente de um crime, não se surpreenda quando a população de seu estado também deixá-lo de lado nas próximas eleições.

[Continua no próximo post.]


quinta-feira, outubro 18, 2007

Recado ao ministro Temporão: vá matar mosquitos!

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Ministro Temporão e seu chefe, o presidente Lula

No dia 29 de março de 2007, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, assim declarou à "Folha de São Paulo" (clique aqui):

“Existe uma ferida aberta na sociedade brasileira. São milhares de mulheres que morrem todos os anos por fazerem abortos em situações inseguras. É um problema de saúde pública. Como meu objeto de trabalho é a saúde do povo, com certeza essa questão me interessa. Mas o que eu acho mais saudável é que a gente abra essa discussão, para que a sociedade opine e o país possa encaminhar uma solução adequada“

Na verdade, senhor Ministro, a ferida aberta na sociedade brasileira tem outra causa: as inúmeras mentiras de tantos homens investidos de cargos públicos. Falar em "milhares" de mortes anuais devidas a abortos é uma mentira deslavada e nem mesmo qualquer liberdade retórica pode servir de desculpa.

Pior ainda: o ministro mentiu consciente de sua mentira. Os dados disponíveis no DATASUS, indicam que as mortes por aborto provocado no Brasil nos anos de 2002 a 2005, foram, respectivamente 7, 6, 11, 22. Já que o ministro usa a quantificação de mortes como forma de alavancar sua agenda, talvez ele pudesse explicar qual matemática utiliza para que os números, que na média ficam apenas em pouco mais de uma dezena, tornem-se milhares em suas declarações.


Na verdade, as declarações do ministro passam longe de erro: trata-se de um método. O método em questão, esta prática de inflar números quando o assunto é aborto, foi utilizado em inúmeros países onde este crime hediondo foi liberado. No Brasil, este método vem sendo posto em prática com maestria sem par.

Quem já não ouviu um ministro dando declarações de que o número de abortos no Brasil bate na casa de 1,5 milhão? Quem nunca leu um jornalista escrever exatamente este mesmo número? Quem jamais viu uma "feminista" bradando este número enquanto queima um sutien? Mas qual a fonte destes números? De onde vem este valor expressivo? Se tais pessoas querem que a questão do aborto seja uma questão de números - evitando, maliciosamente, o espinhoso caminho de ter que justificar a eliminação de uma vida, pois é isto que o aborto é, eles bem o sabem -, se eles fazem mesmo questão de seguir pelo caminho quantitativo mesmo quando o que está em jogo são vidas humanas, por que não trazem os números corretos?

Note-se que os membros do governo Lula conhecem muito bem os números do DATASUS. A Ministra Nilcéia Freire e sua equipe em resposta ao CEDAW (Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women - Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, um braço da ONU que acha que negar o "direito" de matar fetos é uma forma de discriminação contra as mulheres) declarou: "Entre 2002 e 2004 houve 115, 152 e 156 mortes provocadas por abortos, o que faz o aborto a quarta causa de mortalidade materna no Brasil". A declaração da ministra bate com os dados do DATASUS, mas, curiosamente, ela esqueceu de desagregá-los. Tivesse feito isto, ela poderia declarar que as mortes por aborto provocado nos anos referidos foram 7, 6 e 11. O que a ministra fez foi juntar todos os números de mortes por aborto no período, sejam eles abortos espontâneos, abortos por gravidez ectópica ou outros.

Para quem está interessado em discutir o aborto apenas como um problema de saúde pública, que é como este governo e todos os que lhe dão razão pretendem desqualificar os discursos contrários, é no mínimo curioso como os números ou são fantasiosos, no caso do Ministro Temporão, ou são extremamente agregados até o ponto em que sirvam apenas para reforçar a luta pela liberação do aborto, como no caso da Ministra Nilcéia Freire.

Mas parece que a mágica matemática do Ministro Temporão só funciona para aumentar. Em notícia veiculada no jornal "O Estado de São Paulo" (clique aqui), o Ministro reconheceu que o país passa por uma epidemia de Dengue. Apenas este ano, segundo a reportagem, ocorreram 121 mortes em virtude da doença. Notemos que no caso da Dengue não temos que nos debater com argumentos jurídicos, demográficos, religiosos ou filosóficos. Nada disto se aplica; as mortes por Dengue tem apenas um aspecto, aspecto este tão ao gosto do ministro e da ministra: é realmente um problema de saúde pública. E só! Neste caso, o mago dos números não conseguiu baixar a contagem de mortes.

Digamos assim, se o ministro em vez de perder tempo dando entrevistas sobre aborto o tivesse utilizado para matar mosquitos, este tempo teria sido bem melhor utilizado e ele teria a certeza de que o problema diz respeito apenas à alçada de seu ministério. Já que seu "objeto de trabalho é a saúde do povo", como ele declarou à "Folha de São Paulo", é bom que ele saiba que o povo está morrendo de Dengue. Mas, pelo jeito, para o ministro e para o governo Lula, alguns problemas de saúde pública são mais interessantes que outros.

Um conselho para o ministro: deixe as crianças no ventre de suas mães e vá matar mosquitos.

segunda-feira, outubro 15, 2007

O aborto e a Teologia do Ódio de Edir Macedo

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Com o devido respeito às pessoas de boa-fé que se aproximaram da Igreja Universal do Reino de Deus e que imagino que sejam a maioria de seu contingente, a defesa da liberação do aborto por parte de Edir Macedo com a utilização da Bíblia ultrapassa quaisquer limites aceitáveis. Sua utilização de trecho das Sagradas Escrituras para justificar a hedionda prática de extermínio de crianças não nascidas é um emblema da Teologia do Ódio que ele pratica. Jamais vi uma pessoa de referência, como ele infelizmente é, utilizar-se de trecho da Bíblia para justificar o aborto de uma forma tão desonesta e tão baixa.

A profundidade de sua "exegese" é tão pífia que só nos deixa uma possibilidade de análise sobre sua declaração: é pura má-fé. É pura distorção do sentido real do texto sagrado. Edir Macedo, que de bobo nada tem, sabe muito bem que o trecho que ele citou (Ecl. 6:3) em nada serve para justificar o aborto, mas ele pouco se importa com isto, pois o que vale é criar confusão, o que vale é distorcer para enganar aos que o lêem. É um método que, pelo jeito, vem dando certo há muito. Edir Macedo além de nada entender de Teologia ou de Sagradas Escrituras, mostra também que nada entende de História da Igreja. Heresiarcas como ele o mundo já viu muitos e, provavelmente, outros tantos ainda verá. O que todos eles têm em comum? Isto: todos passam, todos viraram poeira na História.

Ao se fazer de porta-voz do aborto em nosso país, utilizando-se para isto do Texto Sagrado para justificar o injustificável, Edir Macedo mostra-se um escravo de seu ódio à Igreja Católica. Parafraseando São Paulo, não é mais ele quem vive, é o seu ódio absurdo que lhe guia os passos. O ódio, este sentimento desprezível, é sua bússola. Sua Teologia vagabunda e sua exegese de quinta categoria é mero reflexo de suas escolhas. Ele escolheu o ódio como seu senhor e somente este ódio insano é que o pode levar a jogar um trecho bíblico na lama comum do discurso abortista. Aqui um detalhe sórdido: nem mesmo a mais ferrenha e espumante "feminista", nem mesmo as "Católicas" pelo direito de Decidir foram tão longe na tarefa. Edir Macedo pulou na frente até dos mais ferrenhos abortistas, aqueles para quem o feto é um mero "punhado de células".

O trecho da entrevista em que ele cita mal e porcamente um pedaço de Eclesiastes é este:

"O que a Bíblia ensina é que se alguém gerar cem filhos e viver muito anos, até avançada idade, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz do que ele (Eclesiastes 6.3). Não acredito que algo, ainda informe, seja uma vida."


Para melhor demonstrar a desonestidade de Edir Macedo, é bom que mostremos na íntegra o trecho que ele citou:

"Um homem, embora crie cem filhos, viva numerosos anos e numerosos dias nesses anos, se não pôde fartar-se de felicidade e não tiver tido sepultura, eu digo que um aborto lhe é preferível."
- Eclesiastes 6:3

Cabe ao líder da Universal explicar, do alto de seus profundos conhecimentos bíblicos, como um trecho como este pode ser utilizado para justificar o aborto. O livro do Eclesiastes é repleto de pensamentos alegóricos em que o homem é levado a pensar em seu fim último, que é estar junto a seu criador. Neste caminho, o homem é confrontado com pensamentos melancólicos sobre o suor gasto no seu dia-a-dia, em seu trabalho, na vaidade de tantas ações tão humanas e que muitas vezes mais nos afastam que nos aproximam do Altíssimo. O dia-a-dia pode ser sufocante e é necessário que o homem, esta criatura amada infinitamente por Deus, tenha sempre à sua frente seu destino, seu rumo, seu Deus.

O trecho em questão nada diz sobre a legalidade do aborto, somente no coração repleto de ódio de Edir Macedo uma tal interpretação pode brotar. O belíssimo texto do Eclesiastes mostra o quanto esta vida pode ser vazia mesmo que tantas vezes pareça a muitos que ela é produtiva. Uma vida vazia é uma vida sem Deus, e o Eclesiastes mostra que quem não encontra a verdadeira felicidade -- Deus -- é pior que um aborto, pois a este foi negada a possibilidade de pisar neste mundo e trilhar o caminho que todos trilhamos. E é negada por pessoas como Edir Macedo... A novidade é que ele tenta utilizar a Bíblia para justificar sua agenda.

Mas, por incrível que pareça, há coisa pior na entrevista do líder da Universal do que a distorção de trechos da Sagrada Escritura e a tomada de versículos fora de seu contexto, prática costumeira em certos ambientes protestantes. A frase "Não acredito que algo, ainda informe, seja uma vida" é praticamente uma confissão da má-fé que permeia toda a "pregação" de Edir Macedo. Se ele se desse ao trabalho de ao menos abrir sua Bíblia de vez em quando, talvez no intervalo da contagem dos milhões de dólares doados por seus "fiéis", ele poderia ler um trecho assim no Livro dos Salmos, capítulo 138:

"13. Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, vós me tecestes no seio de minha mãe.
14. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso. Pelas vossas obras tão extraordinárias, conheceis até o fundo a minha alma.
15. Nada de minha substância vos é oculto, quando fui formado ocultamente, quando fui tecido nas entranhas subterrâneas."


Pois é... Alguém deve estar errado: ou o Rei Davi ou Edir Macedo.

E olhe que nem se trata da melhor tradução. Na Bíblia de Jerusalém, reconhecida como a melhor tradução em Português podemos ver ainda mais claramente a besteira dita por Edir Macedo.

"Sim! Pois tu formaste os meus rins, tu me teceste no seio materno. Eu te celebro por tanto prodígio e me maravilho com tuas maravilhas! Conhecias até o fundo do meu ser: meus ossos não te foram escondidos quando eu era feito em segredo, tecido na terra mais profunda. Teus olhos viram o meu embrião. No teu livro estão todos inscritos os dias que foram fixados e cada um deles nele figura."
(Bíblia de Jerusalém - Salmo 138:13-16)"

"Teus olhos viram meu embrião"
!!! Mas pode ser que Edir Macedo e os que o apóiam cegamente -- não falo aqui dos incautos de boa-fé, muitos que se sentiram acolhidos em situações desesperadoras -- encrenquem com duas traduções católicas do Texto Sagrado. Muito bem... Só que o trecho em tradução protestante é igualmente revelador da má-fé do chefão da Universal:

"Os teus olhos me viram a substância ainda informe (...)."
(Salmo 139:16) - "Bíblia Sagrada", tradução de João Ferreira de Almeida.

O salmista, inspirado pelo Espírito Santo, clama como Deus nos vê, nos conhece quando ainda nem temos nossa forma, quando ainda nem temos a aparência externa de homens. Porém, Edir Macedo não acha que "algo informe seja uma vida". É mais do que evidente quem tem razão... Só não vê quem deliberadamente fecha os olhos ou só tem olhos para seu próprio umbigo, como é o caso de Edir Macedo.

É curiosa a fé de Edir Macedo... Recentemente, em uma propaganda de um evento organizado pela Universal ele era referido como o "maior evangelizador do século". Mas como podemos chamar alguém de evangelizador se esta pessoa não tem o mínimo de honestidade no trato com o Texto Sagrado? Se a Bíblia não corrobora o que pensa Edir Macedo, ele não tem dúvidas: distorce a mensagem o quanto for necessário.

Ainda na entrevista, podemos ler:

"A criança não vem pela vontade de Deus. A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus! Ela simplesmente é gerada pela relação sexual e nada mais além disso. Deus deu a vida ao primeiro homem e à primeira mulher. Os demais foram gerados por estes."


Segundo a Teologia do Ódio de Edir Macedo, a vida não vem de Deus diretamente, tendo ela sendo dada apenas a Adão e Eva, a partir daí tudo é conseqüência de relação sexual. A rasteirice do pensamento de Edir Macedo só é páreo para a má-fé da leitura que ele faz da Bíblia -- se é que podemos chamar a este ajuntamento de sandices de leitura. E quem é que contradiz o profeta do comércio da fé? A própria Sagrada Escritura, agora na pena inspirada do profeta Jeremias:

"Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei (...)"
(Bíblia de Jerusalém - Jeremias, 1:5)

Novamente... Quem é digno de crédito? O profeta Jeremias ou o comerciante Edir Macedo? Óbvio demais, não? O Deus dos cristãos conhece suas criaturas antes mesmo de formadas no ventre materno. O "deus" de Edir Macedo nega a humanidade de pessoas que foram concebidas em um estupro. O Deus dos cristãos dá a Vida a cada ser humano, o "deus" de Edir Macedo deu a vida apenas a um casal e foi descansar. Novamente o materialismo ignóbil de sua Teologia odienta, que até mesmo nega a Deus o papel ativo de criador da vida do homem, reflete apenas o ódio que é sua bússola.

Pobre Edir Macedo... No afã de estar sempre no lugar oposto ao da Igreja Católica, ele se viu na posição de ter que defender o aborto, de ter que distorcer a Bíblia que ele tanto diz seguir, de ter que negar que Deus é o Senhor da Vida. Talvez Edir Macedo não saiba, mas ele se tornou escravo de seu ódio. Não fosse todo este ódio que Edir Macedo tem pela Igreja Católica, ele poderia, no mesmo livro de Eclesiastes, ler as palavras do Deus dos cristãos:

"O homem não é senhor de seu sopro de vida, nem é capaz de o conservar. Ninguém tem poder sobre o dia de sua morte, nem faculdade de afastar esse combate (...)"
. - Eclesiastes, 8:8.

Se o homem nem mesmo é senhor de sua própria vida, que dirá da vida de outros. Assim diz o Deus dos cristãos, mas Edir Macedo diz diferente... Será que ainda é necessário perguntarmos quem tem razão?