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sexta-feira, maio 30, 2008

O cético embasbacado

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Que a África é o "paraíso" da AIDS, ninguém duvida. Um misto de falta de educação, crendices, desmandos governamentais, falta de ajuda externa, etc. etc. etc., ajudou e ajuda a criar o flagelo que corrói aquele continente já tão esgotado por inúmeros e gravíssimos problemas.

E não é que é de lá que vem uma importantíssima lição sobre como lidar com esta doença?

No meio Pró-Vida o sucesso das políticas anti-AIDS em Uganda já é por demais conhecido. Só não vê quem realmente não quer. E o que não falta é gente que acha que apenas preservativos farão com que esta epidemia seja debelada.

O Brasil é dos maiores exemplos disto. A propaganda anti-AIDS por aqui é tão monótona quanto imoral: preservativos. E só... Carnaval? Preservativos! Adolescentes? Preservativos! Jovens baladeiros? Preservativos! Esposos e esposas infiéis? Preservativos! E nada mais.

No Rio de Janeiro, inúmeras ONGs sobem os morros cariocas para ensinarem até mesmo a crianças como colocar preservativos. Algumas vezes, quem ensina a nobre arte são portadoras do vírus HIV! Tudo para aumentar o realismo e manter a atenção do público-alvo. É isto aí! Nada como cuidar com carinho do usuário do futuro! Resultado: a AIDS vai muitíssimo bem no Brasil, obrigado!

O conluio entre as várias esferas de Governo, entre ONGs (sempre elas) e entre a intelectualidade que tece louvores a estas políticas e as ajuda a formular é que cria o ambiente atual, que manda a seguinte mensagem para os jovens (cada vez mais jovens): "façam o que quiserem, só o façam com preservativos". E depois vem gente que fica se perguntando o porquê de a gravidez adolescente e o índice de infectados pelo HIV estar aumentando tanto em nosso país. Será preciso desenhar?

Mas há aqueles que se rendem ao óbvio, às evidências. O repórter Fábio Zanini tem um blog na Folha Online no qual relata suas experiências em uma viagem por toda a África. Em sua mais recente postagem, ele expõe o caso de sucesso de Uganda e se rende à força dos fatos. Segundo suas próprias palavras, seu ceticismo sobre o assunto levou um tapa na cara frente à força dos números daquele país.

De minha parte, achei muito divertido ver um jornalista assumidamente cético sobre a eficácia da abstinência e da fidelidade sentir-se completamente desconcertado pelo que seus olhos viram. Mais engraçado ainda é ele vir a público trazendo a grande "novidade" do caso ugandense, que é praticamente ignorado pela imprensa mundial.

Fiquei com a sensação de que mais um pouco e o jornalista diria que a Igreja tem mesmo razão sobre a abstinência e a fidelidade. Ainda não foi desta vez, mas a evolução natural do que ele viu em Uganda é exatamente isto. Ele pode até não gostar, mas é o que há.

Abaixo, a íntegra da mensagem do blog do jornalista, que apenas reproduzo aqui porque poderá ser patrulhada por forças ocultas para que seja retirada do ar. O original pode ser lido aqui.

***

Aids em Uganda: o moralismo funciona

KAMPALA (UGANDA) – Falei quase nada sobre Aids até agora, o que é uma falha, visto que a doença virou uma marca registrada desse continente.


Então é bastante apropriado que eu toque no assunto aqui, em Uganda. Aids é uma obsessão nesse país, quase uma mania nacional. Por onde você anda, vê centros clínicos, ONGs, igrejas, escolas, com aconselhamento de prevenção ou tratamento para HIV/Aids etc. etc. E placas, cartazes, faixas, tudo que se refere à doença.


De vez em quando é bom ver uma história de sucesso nesse continente, só para variar, e o combate à Aids em Uganda é um sucesso inquestionável. Há 15 anos, cerca de 30% da população tinham o vírus; hoje, são 6,5%.


Enquanto outros países perdiam tempo fingindo que nada acontecia, e até negando que HIV cause Aids (como na África do Sul, onde a taxa é de mais de 20%), os ugandenses agiam para conter a doença. Falar sobre o assunto, assumir o problema e discutir candidamente foi o primeiro passo. Mas teve mais.


Uganda trata a Aids de uma maneira como nós nunca faríamos no Brasil. Uma maneira inusitada, para dizer o mínimo. E assumidamente moralista.


Um exemplo do que acontece por aqui: imagine que você é um oficial do governo e precise traçar uma estratégia para reduzir a incidência de Aids junto a caminhoneiros. Em vários países, esse é um grupo delicado: estão sempre longe de casa, cruzam fronteiras, são cercados por prostitutas o tempo todo. São potencialmente um fator de disseminação da doença. E muitos chegam em casa e podem contaminar suas esposas.


A meu ver, a lógica mandaria que se propagandeasse o uso de camisinhas entre caminhoneiros. Mas veja como é o cartaz do governo de Uganda que vi na sede de uma ONG:



Diz o pôster: “um motorista responsável se importa com sua família; ele é fiel a sua mulher”. O foco não é tentar fazê-lo se proteger quando dormir com prostitutas. Mas tentar convencê-lo, antes de tudo, a não ter a relação sexual. Parece ingênuo, mas o governo acha que funciona. E talvez funcione mesmo.


No Brasil, a ênfase das campanhas contra Aids é no sexo seguro: use camisinha, em outras palavras. Em Uganda, a promoção dos preservativos é apenas a perna mais fraca de um tripé que conta também com a promoção de abstinência e a fidelidade.


O slogan do governo é ABC: A é a inicial de abstinência, B é de “be faithful”, ou seja fiel, e C é para condom, ou camisinha.


Uganda é um país com forte influência das igrejas católica e evangélicas. O presidente, Yoweri Museveni, é, a exemplo de George Bush, um “born again christian”, ou seja, um cristão renascido, que descobriu sua fé no meio da vida. A primeira-dama, Janeth, é ainda mais religiosa.


Não surpreende, então, que o governo coloque tanta ênfase nas letras A e B. Abstinência é direcionada aos jovens, principalmente de menos de 25 anos, idade média em que eles se casam, incentivando-os a se manter virgens até o altar.


O B é dedicado aos casais, pedindo que sejam fiéis. Só em último caso, se a pessoa não conseguir se abster ou for um pulador de cerca contumaz, vem o C: pelo menos use camisinha.


Percebeu a diferença? O enfoque tradicional em vários países, inclusive no Brasil, é centrar fogo na camisinha. Em Uganda, camisinha é um último caso, quase o recurso dos pecadores.


Hoje conversei com representantes de duas ONGs, esperando ouvir algumas críticas à política do ABC. Nada. Aprovam 100%. Há um consenso nacional em torno do tema. Sobra para organizações estrangeiras descerem o pau, dizendo que é irreal esperar que um jovem de 20 anos se mantenha virgem.


Mas os números estão aí, desafiando o que diz a lógica e a convicção de muitos (como eu). São um tapa na cara dos céticos.